Uma delas é ver o orgulho perante a ostentação de produtos que têm origens duvidosas. Ou pior, que tem origens que até nem deixam dúvidas nenhumas: saem ou passam pelo corpo maltratado de outrém. Todos nós que temos olhos e/ou ouvidos que funcionem temos uma ligeira noção de como funcionam corporações como a Nike e afins. Sabemos que os produtos são fabricados algures na Ásia por meia dúzia de tostões e vendidos por centena e tal de euros aqui. Sabemos. Sabemos também que pelo caminho fica o trabalhador que o fez e que continua com fome, o que os transporta, os revendedores, o pai já vai e o Zé do bairro que os vendeu e ganha o salário mínimo. Permite-nos o QI acima de 80 concluir para onde vai o carcanhol.
Ora, custa-me então perceber porque é que pessoas INFORMADAS usam ténis Nike como medalhas de honra. E quem diz Nike diz qualquer uma outra marca de ténis ou de roupa. Que tiram propositadamente fotos aos pés para mostrarem aquilo por que tiveram de trabalhar durante meio mês para poderem usar.
Bem, fico tentada a pensar que tentam compensar por alguma coisa. Muitas vezes constatei que assim é. Pessoas que não gastam meia caloria para ajudar ninguém, inclusivé eles próprios. Não se esmeram por explorar as potencialidades que têm de se individualizar e de tudo fazem para pertencer a um grupo.
Não dúvido que as forças de atracção ao grupo são monumentais. Mas não será muito mais recompensador sentir que, estando alerta, nos recusamos a fazer o que esperam de nós? Sentir que a nossa existência não está pré-programada pelas forças do marketing?
Mete-me o Flávio mais uma vez a pensar com algo que me diz. Falávamos nós da necessidade de informação, que preferia morrer consciente e miserável que viver alegremente estúpida e ignorante a vida toda. Relembra-me ele que eu não tenho como ter noção de como a realidade que eu observo pode estar alterada. E é tão verdade. Eu consigo observar o mundo do ponto de vista que tinha com 15 anos, quando sabia muito menos que agora. É totalmente diferente do mundo que observo agora, não que o mundo tenha mudado assim tanto neste últimos 10 anos, mas porque os meus olhos mudaram.
Ando a ler (com vários anos de atraso) o No Logo, da Naomi Klein. Alterou-me mais uma vez a realidade. Se todos sabemos aquilo que referi no início do texto, neste livro vem muito daquilo que não sabemos. Muitas coisas eu suspeitava, obviamente. Mas não tinha noção da dimensão do problema. E que problema é esse? As marcas. A forma como usurpam o nosso espaço físico e mental, a nossa liberdade enquanto indivíduos e enquanto seres sociais que somos.
Outra micose que me dá é a da minha hipocrisia. Eu tenho marcas. Felizmente nunca fui tarada pelo assunto, mas tenho. Nunca fui capaz de comprar uns ténis de 10 euros. Mas a minha mentalidade está a mudar. Aflige-me agora a falta de alternativa. Tudo que se vê à venda é ou caro, ou feito num recanto miserável do mundo, ou tem pele.
Urge encontrar-se uma TAZ onde eu possa fazer o ninho...

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