"O Darfur depois de Woody Allen
A actriz Mia Farrow vai iniciar um jejum em nome do povo do Darfur. Durante algum tempo, recusa comer. Apenas água lhe passará pela goela. E, infelizemente, algum ar. Quando a larica apertar, alguém porá a mesa e ela tratará de comer do bom e do melhor, enquanto os desgraçados lá na Somália, coninuarão a morrer de fome e, eventualmente, de sede. Cá temos mais um acto inconsequente...
Que mais esperar da uma mulher que inclui no cardápio das causas pelas quais lutou, a aniquilação moral de um cineasta genial, cujo maior erro foi, um dia, ter-se apaixonado por esta mulher com voz estridente e falta de apetite. Woody Allen merecia melhor sorte. O povo do Darfur também (até mais, porque, ao contrário do Woody, os somalis nunca a escolheram para sua mulher)."
É precisamente este tipo de raciocínios que me fazem paragens de digestão. E lá respondi ao diário em questão:
"Surge um artigo de opinião no Global Notícias do dia 24 de Abril da autoria de Gonçalo Pereira que, num tom sarcástico menospreza a iniciativa de Mia Farrow de fazer uma greve de fome pelo Darfur. Ora, talvez a maioria das pessoas aproveitasse a oportunidade para tentar saber um pouco mais de o que leva uma celebridade a fazer greve de fome pelos problemas de uma região, procurando talvez pôr-se a para do que se sucede no tal Darfur. Mas não Gonçalo Pereira. Esse decide que o Darfur é um problema secundário, que nefasto para saúde social é o facto de passar algum ar pela goela de Mia Farrow, reproduzindo a expressão que ele mesmo utilizou.
Refere ele que muito não poderia esperar de uma mulher que tentou denegrir a imagem do seu idolatrado Woody Allen. Claro, que o facto de este se ter casado com aquela que foi um dia criada por ele, quando vivia maritalmente com a sua mãe não é para aqui chamado. Certamente que Gonçalo Pereira acha perfeitamente normal que a figura parental se case com a prole e que Mia Farrow é louca por lhe causar uma certa abjecção tal acontecimento.
Para Gonçalo Pereira, Woody Allen e os somalis merecia melhor sorte que esta mulher de voz estridente e falta de apetite.
Para o restante mundo que tenha no mínimo 1/5 do cérebro a funcionar, Mia Farrow merecia melhor que se ter apaixonado pelo homem que lhe levou a filha. Porque tem dedicado a sua vida aos mais desfavorecidos.
Para o resto do mundo, o povo do Darfur merece mais que Gonçalo Pereira. Que perante a notícia da greve de fome de Mia Farrow se preocupou com trivialidades e lhe passou ao lado aquilo por que Mia Farrow se absteve de comer. Chamar a atenção para um conflito que dura há anos e tem ceifado centenas de milhar de vidas perante o desprezo do resto do mundo.
Darfur, essa região no oeste do Sudão e não na Somália, soubesse isso Gonçalo Pereira se tivesse pesquisado.
Cabe também ao Global Notícias a melhor escolha das pessoas a quem pede a opinião. "
