segunda-feira, abril 27, 2009

Ihh ca...

Artigo de Gonçalo Pereira, editor executivo do jornal 24Horas, no Global de 24/04/2009:

"O Darfur depois de Woody Allen

A actriz Mia Farrow vai iniciar um jejum em nome do povo do Darfur. Durante algum tempo, recusa comer. Apenas água lhe passará pela goela. E, infelizemente, algum ar. Quando a larica apertar, alguém porá a mesa e ela tratará de comer do bom e do melhor, enquanto os desgraçados lá na Somália, coninuarão a morrer de fome e, eventualmente, de sede. Cá temos mais um acto inconsequente...

Que mais esperar da uma mulher que inclui no cardápio das causas pelas quais lutou, a aniquilação moral de um cineasta genial, cujo maior erro foi, um dia, ter-se apaixonado por esta mulher com voz estridente e falta de apetite. Woody Allen merecia melhor sorte. O povo do Darfur também (até mais, porque, ao contrário do Woody, os somalis nunca a escolheram para sua mulher)."



É precisamente este tipo de raciocínios que me fazem paragens de digestão. E lá respondi ao diário em questão:

"Surge um artigo de opinião no Global Notícias do dia 24 de Abril da autoria de Gonçalo Pereira que, num tom sarcástico menospreza a iniciativa de Mia Farrow de fazer uma greve de fome pelo Darfur. Ora, talvez a maioria das pessoas aproveitasse a oportunidade para tentar saber um pouco mais de o que leva uma celebridade a fazer greve de fome pelos problemas de uma região, procurando talvez pôr-se a para do que se sucede no tal Darfur. Mas não Gonçalo Pereira. Esse decide que o Darfur é um problema secundário, que nefasto para saúde social é o facto de passar algum ar pela goela de Mia Farrow, reproduzindo a expressão que ele mesmo utilizou.

Refere ele que muito não poderia esperar de uma mulher que tentou denegrir a imagem do seu idolatrado Woody Allen. Claro, que o facto de este se ter casado com aquela que foi um dia criada por ele, quando vivia maritalmente com a sua mãe não é para aqui chamado. Certamente que Gonçalo Pereira acha perfeitamente normal que a figura parental se case com a prole e que Mia Farrow é louca por lhe causar uma certa abjecção tal acontecimento.

Para Gonçalo Pereira, Woody Allen e os somalis merecia melhor sorte que esta mulher de voz estridente e falta de apetite.

Para o restante mundo que tenha no mínimo 1/5 do cérebro a funcionar, Mia Farrow merecia melhor que se ter apaixonado pelo homem que lhe levou a filha. Porque tem dedicado a sua vida aos mais desfavorecidos.

Para o resto do mundo, o povo do Darfur merece mais que Gonçalo Pereira. Que perante a notícia da greve de fome de Mia Farrow se preocupou com trivialidades e lhe passou ao lado aquilo por que Mia Farrow se absteve de comer. Chamar a atenção para um conflito que dura há anos e tem ceifado centenas de milhar de vidas perante o desprezo do resto do mundo.

Darfur, essa região no oeste do Sudão e não na Somália, soubesse isso Gonçalo Pereira se tivesse pesquisado.

Cabe também ao Global Notícias a melhor escolha das pessoas a quem pede a opinião. "

sábado, abril 11, 2009

Mr. Alan Shore

Raras vezes tenho o prazer de assistir na tv a um programa de ficção que me aguce a vontade de ser melhor, de procurar mais fundo, de me questionar mais uma vez. Ver ficção e ficar horas a pensar no que aprendi - algo que que deveria acontecer mais vezes.

Eis que surge, para exaltação dos meus sentidos, a série Boston Legal. Diálogos deliciosos entre duas das personagens principais Denny Crane e Alan Shore, que se debatem com o sentido das suas vidas. Duas personagem opostas no espectro político e juntas na total confusão dos meandros do amor.

Mas, ponto alto dos episódios, os argumentos finais de Alan Shore. Um democrata, profundamente preocupado com questões ambientais e sociais, que não se abstém jamais de dizer o que todos pensam e ninguém diz.

Podia ficar aqui parágrafo atrás de parágrafo a dizer o que me fascina nesta personagem e na série em geral. Mas deixo aqui um dos argumentos finais do Alan Shore.

Alan Shore: When the weapons of mass destruction thing turned out to be not true, I expected the American people to rise up. Ha! They didn't.

Then, when the Abu Ghraib torture thing surfaced and it was revealed that our government participated in rendition, a practice where we kidnap people and turn them over to regimes who specialize in torture, I was sure then the American people would be heard from. We stood mute.


Then came the news that we jailed thousands of so-called terrorists suspects, locked them up without the right to a trial or even the right to confront their accusers. Certainly, we would never stand for that. We did.


And now, it's been discovered the executive branch has been conductin
g massive, illegal, domestic surveillance on its own citizens. You and me. And I at least consoled myself that finally, finally the American people will have had enough. Evidentially, we haven't.

In fact, if the people of this country have spoken, the message is we're okay with it all. Torture, warrantless search and seizure, illegal wiretappings, prison without a fair trial - or any trial, war on false pretenses.

We, as a citizenry, are apparently not offended.
There are no demonstrations on college campuses. In fact, there's no clear indication that young people seem to notice. Well, Melissa Hughes noticed.

Now, you might think, instead of withholding her taxes, she could have protested the old fashioned way. Made a placard and demonstrated at a Presidential or Vice-Presidential appearance, but we've lost the right to that as well. The Secret Service can now declare free speech zones to contain, control and, in effect, criminalize protest.
Stop for a second and try to fathom that. At a presidential rally, parade or appearance, if you have on a supportive t-shirt, you can be there. If you are wearing or carrying something in protest, you can be removed. This, in the United States of America. This in the United States of America. Is Melissa Hughes the only one embarrassed?

[...]

Alan: And what I'm most sick and tired of is how every time somebody disagrees with how the government is running things, he or she is labeled unAmerican.

U.S. Attorney Jonathan Shapiro: Evidentally, it's speech time.


Alan: And speech in this country is free, you hack! Free for me, free for you. Free for Melissa Hughes to stand up to her government and say "Stick it"!


U.S. Attorney Jonathan Shapiro: Objection!


Alan: I object to government abusing its power to squash the constitutional freedoms of its citizenry. And, God forbid, anybody challenge it. They're smeared as being a heretic. Melissa Hughes is an American. Melissa Hughes is an American. Melissa Hughes is an American!

Judge Sanders: Mr. Shore. Unless you have anything new and fresh to say, please sit down. You've breached the decorum of my courtroom with all this hooting.


Alan: Last night, I went to bed with a book. Not as much fun as a 29 year old, but the book contained a speech by Adlai Stevenson. The year was 1952. He said, "The tragedy of our day is the climate of fear in which we live and fear breeds repression. Too often, sinister threats to the Bill of Rights, to freedom of the mind are concealed under the patriotic cloak of anti-Communism."


Today, it's the cloak of anti-terrorism. Stevenson also remarked, "It's far easier to fight for principles than to live up to them."
I know we are all afraid, but the Bill of Rights - we have to live up to that. We simply must. That's all Melissa Hughes was trying to say. She was speaking for you. I would ask you now to go back to that room and speak for her. "It's far easier to fight for principles, than to live up to them."

quinta-feira, abril 09, 2009

Chamem a polícia! Ou na volta é melhor não...

Ian Tomlinson.

Que este nome não seja esquecido. Mais uma baixa de uma guerra que teima em manter facções mal delineadas. Que se sabe? Era um senhor que vendia jornais. Vinha a caminhar para casa depois do trabalho e foi apanhado no meio de uma manifestação e, sem ter provocado ninguém, foi atirado ao chão, levou umas bastonadas, ergue-se, cambaleou um pouco e ficou prostrado no chão. Um ataque cardíaco fulminou-o. Quem o agrediu? A polícia britânica, a mesma que posteriormente negou alguma vez se ter cruzado com o homem. A mesma que foi apanhada pela câmara de um americano que se encontrava numa viagem de negócios. A mesma que abriu agora um inquérito para averiguar o que se passou e apurar responsabilidades.

Jean Menezes. Um brasileiro que foi baleado 7 vezes na cabeça, confundido com um bombista-suicida, no metro londrino. Façam vocês os raciocínios que tiverem a fazer.

Não nos servem e não nos protegem. E não chegam aos fins para os quais usam meios injustificáveis.

terça-feira, abril 07, 2009

E aqui e agora?

Debato-me frequentemente com a sensação de não encaixar em lado algum, à semelhança de todas as outras pessoas que numa ou noutra altura da sua vida sentiram o mesmo. Qual é a originalidade do meu sentimento? O facto da dicotomia do viver "confortavelmente" na sociedade em que estou instalada/viver no campo isolada, em contacto com a Natureza, me trazer dúvidas existenciais a cada passo que dou.

A verdade é que não seria eu se vivesse hermética em apenas um dos ambientes. Por um lado, tenho de saber o que se passa no mundo, ter acesso imediato à informação, pensar em formas de agir, ponderar os passos a tomar para evitar cair nas baladas artificiosas que nos cantam constantemente e nos atingem por todos os lados. "Ignorance is bliss" - já tentei e não consigo viver sob este paradigma.

Por outro lado, tudo aquilo que abomino na sociedade, a lógica do lucro que se sobrepõe à justiça e à compaixão, a mesquinhez e a avareza que eclipsa a solidariedade e os laços entre todos, o encadeamento na linha de montagem social, em que se entra quando se nasce e poucos saltam dela para viver sob as suas próprias expectativas e não as dos outros, nada disso será abolido enquanto não mudarmos a escala do nosso raio de acção.

A forma de organização da sociedade pensada ao nível das fronteiras conquistadas em conflitos, desenhadas em reuniões (ou terão sido aulas de geometria?) e não justificada a sua génese que não por estes ou outros motivos inqualificáveis, não é sensível às necessidades de todos e de cada um.

O desperdício que resulta das acções globais, ao mesmo tempo que largos números de pessoas nada têm, deveria ser considerado o maior dos males.

Talvez seja utópica a minha forma de pensar, porque acredito (bem... até certo ponto) que a sociedade se pode redimir, caminhando noutro sentido, pensado localmente, agindo localmente, ignorando barreiras tangíveis a que o coração não jura lealdade, o meu pelo menos.

Mas, com a minha utopia, vem também a esperança. É que fica por provar que é impossível, que não funciona. Aquilo que me têm sugerido já me mostrou o que podia ser. Um falhanço.

Aguardo o dia em que o Sol quando nascer, seja de todos. TODOS.